terça-feira, 1 de março de 2011

CELEBRAÇÃO D’UM VÉRTICE

                                                   
                       (Análise sobre obra da fotografa e poeta Lair Bernardoni)



        
             São tantas as lendas  da grande  Babitonga (morcego na dialética carijós) São quantas as ilhas desse imenso rato alado?  - dos Araújos de Dentro, Fora, Meio, Corisco, Redonda, Murta, Rita, Negros . Ah  Ilhinha! – palmeira hirta vestida d’um fio  de lâmina cortante onde singram aves de espreitas, giransóis  giranluas, esperas,  recolhimentos cartas idas/vindas, mãos pinceladas de luz. Quantos olhos criam asas na Torre  de volutas azuis para derramar sobre as cabeças do mundo poemas alados,  desejos sonhantes e nacos eternos furtados d’uma echarpe voadora?  Compreendo teus soluços.  Intensa, grave, absoluta revestes nossas peles de plátanos ocre recolhidos da quietude recôndita, idílica de Saint-Exupery. Sim Antoine, somos da nossa infância como se é de qualquer país.
             Em pó-d’ouro nas mãos de teu  pai desvenda-se a borboleta em matizes que o tempo contará. És menina. És metáfora azul. És ouro que teu pai saúda e te entrega aos céus nossos de cada dia. Não és ilha. És mundo: fotômetro enlouquecido agulha desvairada – Torres del Paine.
             Ah!  se todos os homens do mundo tivessem no peito o desvelo do sr.Rapp . Sim ,  eles são necessários. São singulares guardiões das angústias indizíveis saidas  das gargantas dos líricos. Teu choro preso desatado:
Onde estaria a Nikon na noite fria daquela angústia avançada?  Estaria n’algum deserto oriental lá onde sempre haverá  um poço? N’alguma ilha inventada em Dubai? Ou na rima da lâmpada de Aladim? Atinei melhor.  Encontrei-a aportada sobre raízes de tantos outonos, enquadrando paredes vesperais campos semeados, grutas tonais, moinhos da lida, oliveiras nodosas povoadas de faces grafadas em prata. Vergônteas . Amiúde: mulheres vestais análogas atemporais.
             Portas trancadas janelas emperradas. Quem te lê por trás de tudo? O guardião das  chaves, ou as metáforas do tempo indomado vazadas d’entre  as fendas perenes da janela da casa do teu pai –tua casa interior, teus halos de eterna menina alada. Há sempre uma linha d’água, um espelho para os deuses  flexos, tísicos, ainda que dissonantes – a sintagma de Deus. Nos profundos dessas águas indeléveis,  sinuosos,  teus poemas lavrados de asas. Sim. Asas em todas as páginas. Tuas diáforas fracionadas põem sobre a mesa existencial dardos iluminados, tua têmpera ungida na constelação de sagitário. Quem te lê sob  diáfano cristal d’alma impossível desatar da obra sem tornar-se Ícaro.
             Que laços esplendorosos Lá primavera rosa! –dos rosas amarillas. Atadas, Lair in Alfonsina: são cromos de outonos invernais,  é mar de sempre. São as veias  abertas desta Latíndia América: Gabriela Mistral Violeta Parra Mercedes Sosa Cecílias Hildas Coralinas, fêmeas atávicas molhadas de luz sangues e crias cavalas  aladas/encilhadas/tangidas do canto mais puro ao choro mais fundo.
              Que ingredientes estão no corpo desta dor que  eu sinto? Ora! d’areia grossa recolheste o poema feito de sal e rimas estelares. Pablo deixou-nos Vinte poemas de amor  e Uma canção desesperada e lá estavas silente, finita, coração escancarado aos cheiros eternos da poesia (falavras atemporais), às fragâncias da história e suas quietudes, eras ali um vento visível num redemoinho de encantamento. Neruda não morreu: sobre a tosca grossa tábua chegava (ainda) boiando em águas de encharco . Eras ali simbiose, tertúlia polarizada, coração disparado suspirando em dores seculares  q’é  aonde os poetas se aninham quando as palavras não cabem na garganta e  o grito um fio morno desatado de olhos tão cheios de tudo tanto.
               Que ingredientes estão no corpo desta dor que eu sinto? Ora, Pablo Matilde Isla Negra Lair! tão iguais tão perto tão juntos tão dentro  -na Torre, janelão envidraçado, cama espia palmeira hirta vincando Ilhinha em moldura de mar-amar. Ora  ora . São ingredientes tão densos tão teus . Agora tão nossos que a lemos em tua vasta e virtuosa obra.



                                                                                 Eulália Maria Radtke

                                                                        ( Sobre Asas Azuis Poema Alado )

                                                                                          Outono de 2009

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